Busca por leitos para Covid-19 cresceu 93% no Rio em quatro semanas

Busca por leitos para Covid-19 cresceu 93% no Rio em quatro semanas

O que todos temiam, desde o início da pandemia, volta a assombrar o Rio de Janeiro. Pela quinta semana consecutiva, o Estado apresentou uma alta no pedido de internações para pacientes com Covid-19. Um levantamento do GLOBO com dados da Secretaria estadual de Saúde mostra que, na última semana epidemiológica — entre os dias 15 e 21 de novembro — , as unidades de toda a rede SUS do Rio pediram vagas para 1.044 pessoas com suspeita ou caso confirmado de coronavírus. A procura por leito na rede saltou 93% em quatro semanas: entre 18 e 24 de outubro, tinham sido requisitadas 540 vagas. O quadro constatado pelo jornal foi o que levou as autoridades federais, estaduais e municipais a deflagrarem nesta segunda-feira um plano de ação rápida, em que suspendem cirurgias eletivas — desde que não sejam oncológicas ou bariátricas, entre outras — e ofertam mais 214 vagas para pacientes com a doença.

Mais do que determinar se é um repique ou uma segunda onda, o importante é definir uma reação à altura do fenômeno. O fato é que o Rio registra o maior pedido de leitos da pandemia desde junho. O infectologista Roberto Medronho, diz que ainda não é possível prever o tamanho do problema, mas ele não acredita que voltaremos aos patamares de maio, no auge do avanço da doença no Estado.

— Sabendo que a reinfecção é um evento raro, a velocidade de disseminação tende a ser menor. Mas, sem saber quais serão as medidas tomadas pelas autoridades, não é possível estimar quantas pessoas serão infectadas — afirma, observando que a última mudança de estágio na flexibilização da quarentena na capital, em 3 de novembro, quando as praias e eventos foram liberados, pode ter contribuído para o cenário atual porque, naquele momento, os pedidos de leito já sinalizavam uma tendência de aumento.

A alta procura por atendimento médico é apontada por especialistas como um dos primeiros sinais de que o vírus volta a circular com força em território fluminense. Isso porque o número de internações é um dos poucos índices em tempo real do comportamento da pandemia, já que as notificações diárias de novos casos e óbitos podem sofrer atraso de semanas.

No dia 3 de novembro, a prefeitura do Rio anunciou que o município entrava no “período conservador”, em que os banhistas poderiam voltar às areias das praias, e as pistas de dança cariocas reabririam. Às vésperas das eleições, o argumento usado por Marcelo Crivella foi de que a população carioca já estava atingindo uma “imunidade de rebanho” — tese descartada por cientistas — e também a necessidade reativar a economia. Procurado nesta segunda-feira, o município não quis se pronunciar sobre o avanço da Covid com o fim das restrições.

Média de mortes em alta

Duas semanas depois das medidas de afrouxamento — tempo que estudiosos apontam como o início do impacto de qualquer medida relacionada à disseminação da Covid — , o que se viu foi o aumento da pressão sobre o sistema de saúde. Estamos na 47ª semana epidemiológica (15 a 21 de novembro). O chamado “período conservador” na cidade, determinado por Crivella, teve início na 45ª semana. Nela, os ponteiros já indicavam que a busca por leitos tinha crescido 9%, e por UTIs , 12,5% em todo o Estado, em relação à semana anterior ao anúncio.

“É uma situação dramática sem um horizonte no futuro. Teríamos de fechar bares e restaurantes que a literatura mostra serem locais com grandes transmissão e suspender eventos de aglomeração. Ou, sem isso, abrir leitos”

Os pedidos por vagas para pacientes graves e com necessidade de permanecerem em UTIs também tiveram um grande salto, no mesmo período. Os dados analisados pelo jornal mostram que, na semana passada, os médicos pediram leitos para 453 pessoas, um aumento de 48% em relação à 45ª semana — de 1º a 7 de novembro.

—Essa não é uma fluatação aleatória, como seria o natural. A partir da 44ª semana, há um aumento consistente da curva. Há uma probabilidade muito grande de a reabertura, decretada há duas semanas, além do descaso com as medidas de proteção e de afastamento, esteja associada a este crescimento — observa Medronho.

Já Lígia Bahia, especialista em Saúde Pública da UFRJ e colunista do GLOBO, critica a reabertura, que em sua avaliação teve critérios “políticos e econômicos”:

— Não é uma segunda onda, é um repique de casos. Tivemos reabertura totalmente caótica movida por critérios políticos e econômicos. E está todo mundo na rua sem informação, sem testagem, com tudo reaberto — diz, destacando que teme as festas de fim de ano. — É uma situação dramática sem um horizonte no futuro. Teríamos de fechar bares e restaurantes que a literatura mostra serem locais com grandes transmissão e suspender eventos de aglomeração. Ou, sem isso, abrir leitos.

Nesta segunda-feira, depois de uma reunião no escritório do Ministério da Saúde no Rio, ficou decidido que serão abertos 214 leitos para Covid-19 no Estado. Também faz parte do planejamento a suspensão de cirurgias eletivas nos hospitais de emergência da rede SUS do Rio, a partir de 7 de dezembro, com exceção das oncológicas, bariátricas, vasculares, ortopédicas e neurológicas.

Segundo a prefeitura do Rio, a taxa de ocupação de leitos de UTI para Covid-19 na rede SUS — que inclui leitos de unidades municipais, estaduais e federais — no município é de 90%. Nesta segunda-feira, o Estado registrou 54 mortes e 485 novos casos de Covid. Em comparação com duas semanas atrás, há uma subida de 91% na média móvel de casos e de 186% na média móvel de mortes. A alta bem acima de 15% indica aumento no contágio da doença, pelo sétimo dia consecutivo. Os dados são do consórcio de veículos de imprensa.

Fonte: O Globo

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