Especialistas alertam: sistema de Saúde do Rio não dará conta dos casos de coronavírus

Especialistas alertam: sistema de Saúde do Rio não dará conta dos casos de coronavírus

Um terço dos pacientes infectados pelo novo coronavírus internados nos hospitais públicos da cidade do Rio está em Centros de Tratamento Intensivo (CTIs). Dados do painel Rio Covid-19, mantido pela prefeitura da capital, mostram que, dos 447 doentes hospitalizados na rede do Sistema Único de Saúde (SUS), o que inclui as redes municipal, estadual e federal, 159 se encontram em unidades destinadas aos casos mais graves. A proporção é parecida se observada apenas a rede municipal: nesta segunda-feira, dos 195 internados, 62 estavam em CTIs.

Além do agravamento, o rápido crescimento do número de casos preocupa. Em uma semana, a quantidade de pessoas hospitalizadas nas unidades da prefeitura dobrou. No último dia 6, eram 86. No domingo, chegou a 170. Com isso, o Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, adaptado para ser referência no tratamento do coronavírus, por exemplo, já está com 117 de seus 150 leitos ocupados. Na tarde de ontem, segunda-feira, só havia seis vagas no CTI, que tem 50 lugares.

Na rede estadual, metade das enfermarias e 71% dos leitos em UTIs destinados a pessoas com Covid-19 já estão ocupados. Diante desse cenário, especialistas se preocupam com a possibilidade de a rede pública entrar em colapso antes que os hospitais de campanha fiquem prontos.

— Nesse ritmo, não vai dar tempo de prover leitos, respiradores e profissionais de saúde suficientes — afirma Ligia Bahia, especialista em saúde pública da UFRJ, preocupada com o cenário atual: — Por mais que tenha esforços, principalmente da Secretaria estadual de Saúde, para hospitais de campanha e reserva de leitos, acho que o sistema não vai dar conta. E mesmo se conseguirmos, faltam respiradores ou pessoal. Enquanto isso, enfrentamos uma doença que se espalha muito rapidamente. Do dinheiro do Ministério da Saúde, parece que só uma pequena parte chegou.

De acordo com o ex-secretário municipal de Saúde Daniel Soranz, o “colapso no sistema já está ocorrendo”:

— A solução mais rápida seria abrir esses cerca de mil leitos que estão fechados. Na capital, as salas amarela e vermelha das emergências operam com o dobro da lotação por pacientes que aguardam transferência para leitos de referência. Os hospitais de campanha, quando abertos, ainda vão precisar ser estruturados. Por isso, deviam usar as vagas do Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), por exemplo.

Sobre os hospitais de campanha, a promessa do governo estadual é abrir pelo menos 2.200 leitos até o fim do mês. Já a prefeitura está concluindo o hospital do Riocentro, com 500 vagas, e as 150 vagas do Ronaldo Gazzola podem crescer para 381.

O Estado do Rio conta com cerca de 500 leitos reservados para tratamento da Covid-19 em outras unidades de saúde, como no Instituto Estadual do Cérebro e no Hospital Universitário Pedro Ernesto. A subcoordenadora de saúde da Defensoria Pública, Alessandra Nascimento, lembra, porém, que a rede disponível já não seria suficiente mesmo antes da abertura de novos leitos.

— Temos preocupação sobre a oferta. Se efetivarem todos os quase 4 mil leitos extras (somando todas as redes), vai dar uma folga para a rede, mas o fato é que os leitos sempre foram escassos para a demanda natural. Há inclusive sentença, numa ação do MPRJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro) de que participamos, em que se reconhece o deficit de leitos. Acrescentando, então, o problema do novo coronavírus, sabemos que a rede não dá conta. Então, precisamos criar novos leitos — afirma Alessandra.

No fim do ano passado, a Defensoria Pública conseguiu uma liminar, numa ação por causa do contingenciamento do orçamento municipal para a Saúde, que garante o fornecimento diário de informações sobre a disponibilidade de leitos. A preocupação da Defensoria é desbloquear leitos fechados por problemas técnicos, como necessidade de obras. Atualmente, há a esperança, por exemplo, de liberar 20 leitos no CER Leblon e 20 no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, um dos principais da Zona Oeste do Rio.

O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Alexandre Telles, disse que também há expectativa de reabertura de 40 leitos da Santa Casa, no Centro do Rio. Números, porém, tímidos, levando em consideração que o estado do Rio fechou 1.002 leitos nos últimos quatro anos em hospitais de referências, de acordo com números do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES)

Segundo o CNES, em fevereiro deste ano, o estado possuía 19.646 leitos de internação e complementares (UTIs e cuidados intermediários). Há duas semanas, o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, afirmou que o Estado do Rio possuía 32.500 leitos, sendo 11.300 da rede privada. Procurada, a Associação Nacional de Hospitais Privados respondeu não ter números sobre ocupação das vagas na rede privada do Rio. Mas a Rede D’or também está construindo hospitais de campanha no Leblon e em Jacarepaguá, totalizando 400 vagas.

Fonte: Jornal Extra

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