Kátia Branco: Manterrupting e Mansplaining

Kátia Branco: Manterrupting e Mansplaining

Apesar da importante conquista da cota de 30% das verbas do fundo partidário para as mulheres, a presença das mulheres nos espaços de decisão é uma luta que travamos todos os dias. Nossa central, que carrega as trabalhadoras em seu nome, muito se orgulha das grandes lideranças feministas que atuam nas batalhas diárias do sindicalismo classista e não podia se calar diante do absurdo machista que toda a sociedade brasileira presenciou na última edição do programa Roda Viva.

Pré-candidata à presidência pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Manuela D’Ávila foi interrompida pela bancada do programa por sessenta e duas vezes pela bancada. O pré-candidato Ciro Gomes (PDT), por exemplo, foi interrompido apenas oito vezes pelos entrevistadores quando passou pela sabatina. A postura da bancada do programa no entanto não pecou apenas nisso.

A bancada de entrevistadores, escolhida a dedo pela emissora, tinha um viés altamente reacionário. Até mesmo um coordenador de campanha do candidato Jair Bolsonaro fora escalado para inquirir a candidata comunista. E inquirir é o termo correto para o que foi aquela entrevista onde um verdadeiro tribunal de inquisição se ergueu contra a pré-candidata que jamais se deixou abalar pelos ataques.

Não permitiram que Manuela respondesse às perguntas, focaram a entrevista no ex-presidente Lula e, a todo momento, desqualificaram a candidatura da comunista. Nós, mulheres classistas da CTB RJ, repudiamos a postura do programa com a pré-candidata e conhecemos bem, no dia a dia de nossa luta, as práticas usadas pelo programa e, pelo machismo em geral, para silenciar e afastar dos espaços de poder mulheres empoderadas.

Os conceitos de manterrupting e mansplaining explicam o que aconteceu durante o programa. O manterrupting vem da junção das palavras man (homem) e interrupting (e interrupção), significa “homens que interrompem”. Isso ocorre quando a mulher não consegue concluir as frases e reflexões, dada a interrupção masculina. Isso é o que mais aconteceu no programa e o que mais acontece no dia-a-dia das mulheres que ocupam espaços de poder e decisão. Uma prática que enfrentamos diariamente e que precisa ser abolida da sociedade.

Já o mansplaining é tão ou mais problemático do que o manterrupting. Formado pela soma dos termos man (homem) e explaining (explicar), essa prática machista ocorre quando o homem se comporta de forma a tentar explicar de forma didática algo que a mulher notoriamente já conhece ou quando tenta demonstrar para a mulher que está errada, quando está correta. Uma postura que tenta diminuir a mulher intelectualmente e desqualificar suas posições. Postura que também foi vista no programa e que é reflexo de uma bancada misógina escolhida pela emissora.

Combater o manterrupting e o mansplaining é uma tarefa do movimento sindical e nós, mulheres trabalhadoras do sindicalismo classista da CTB estamos atentas a isso. Enfrentamos essa prática em todos os espaços, com todas as forças, pois desde sua fundação, um dos compromissos da nossa central é com o empoderamento e a força das mulheres dentro do movimento sindical.

CTB, a luta das mulheres é pra valer!

*Kátia Branco é dirigente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e Secretária da Mulher Trabalhadora da CTB Rio de Janeiro.

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