Trabalhadoras Domésticas relatam desafios na pandemia

Trabalhadoras Domésticas relatam desafios na pandemia

Há seis meses o estado do Rio de Janeiro confirmava a primeira morte por Covid-19. A vítima, uma empregada doméstica de 63 anos que teve contato com a patroa que esteve na Itália e estava com a doença. De lá para cá, o Rio passou das 17 mil mortes causadas pela doença, atravessou medidas restritivas e reabertura, mas as colegas de profissão da primeira vítima continuam atravessando dificuldades.

O G1 conversou com outras domésticas que relataram dificuldades no período para pagar as contas e se realocar no mercado de trabalho.

Chefe de família na Maré

Cozinheira sem carteira assinada, Angélica Costa Gordo, 48 anos, tem lúpus e trabalha uma vez por semana na casa de uma família. Por conta da doença autoimune, ficou afastada de março a agosto do serviço e recebendo semanalmente da patroa. No entanto, não pode contar somente com esta renda para pagar todas as contas.

Moradora da Maré, ela foi uma das contempladas pela instituição Redes da Maré que fez doações de cestas básicas e cartões de alimentação para 17 mil famílias da comunidade em abril, maio e junho. Segundo a organização, 80% do perfil das pessoas que receberam as doações foram mulheres que, assim como Angélica, são chefes de família e foram afetadas economicamente pela pandemia.

“Consegui pegar o auxílio emergencial a partir de maio também. Foi isso que me salvou e por isso que fiquei em casa. Mas eu senti todos os sintomas da Covid em junho, só que não fui ao médico. Como eu tenho lúpus, fiquei com muito medo de sair e eu me mediquei. Tive muita dor no corpo – muita dor mesmo, febre, dor de garganta, dor de cabeça e tosse”.

Parte do tratamento para o lúpus é o uso regular do medicamento cloroquina. No entanto, a cozinheira, que passou a pagar tudo por cartão nos meses de pandemia, precisou ficar dois meses sem tomar o remédio. “Costumo comprar na farmácia universitária da UFRJ, só que lá é só em dinheiro e eu estava sem. Tentei comprar em farmácia normal, mas o preço ficou muito alto e fiquei sem usar”.

Ela explica que, por mais que tenha ficado insegura em retornar a trabalhar, achou melhor por temer perder o emprego. Ela usa o transporte público, troca de roupa ao chegar ao local e conta que usa bastante álcool para fazer higienização.

Mãe de quatro filhos, sendo uma adolescente, Angélica diz que o mais tem lhe assustado são os bailes que acontecem na região que mora. “Toda sexta-feira rola baile até 9 horas da manhã e fica lotado. No dia seguinte, se você vai na padaria, encontra as pessoas. Não deixo minha filha sair de jeito nenhum”.

Sonho da carteira assinada

Há mais de três anos sem trabalhar com contrato CLT, Cátia Regina Crespo da Silva, 46 anos, perdeu o emprego como cuidadora na casa de um senhor com a chegada da pandemia. A filha dele, quem lhe pagava o salário, também ficou desempregada. Por mais de um ano ela trabalhava de segunda a sexta-feira, das 8 horas às 17 horas, e aceitou não ser registrada porque “estava desempregada e precisava muito desse trabalho”.

“Minha única renda é vender empadinha na rua. Uma moça faz e eu saio para vender. Ganho uma porcentagem em cada empada que eu vendo. Vendo aqui por São Gonçalo, vou andando pela rua e perguntando nas casas das pessoas e comércios quem quer”.

Cátia conta que a maior dificuldade se dão nos dias de chuva porque “se não vender, não ganho e não tenho dinheiro para comprar nada”. Atualmente, mora sozinha de favor em uma casa.

Sem internet, ela precisou pedir ajuda a uma sobrinha para fazer o cadastramento no site Caixa Auxílio Emergencial. Mesmo assim, ainda não recebeu nenhuma parcela do auxílio e diz que aguarda a situação que no sistema consta como ‘em análise’.

“Continuo procurando emprego, batendo de porta em porta e distribuindo currículo. Eu queria voltar a trabalhar em supermercado, como quando eu fui operadora de caixa, mas ainda não consegui. O que me oferecerem, qualquer serviço digno e que pague direito, está bom”.

Desigualdade do vírus

Um estudo feito pelo Observatório de Favelas mostrou que a progressão do coronavírus na capital ganhou rápida extensão geográfica ‘dos bairros de classes médias com maior renda econômica’ para subúrbios, favelas e periferias cariocas.

A Cartografia Social da Covid-19 do Rio de Janeiro registra que a partir do momento que o vírus atinge os bairros populares, o impacto causado é desigual — a taxa de letalidade é expressivamente mais alta em regiões mais pobre e populosas, por exemplo.

Para Lívia Salles, mestra em Planejamento Urbano e Assessora de Programas e Políticas da ActionAid Brasil, o vírus não é democrático.

“No início, falava-se muito que todo mundo tinha chances de ficar doente. Com a expansão do vírus para regiões periféricas, vimos que são as pessoas ali que mais morrem. São áreas em que o acesso aos serviços é muito mais complexo, não têm serviço básico de atenção à saúde ou que o serviço está sucateado pela sucessão de desmonte das políticas públicas. Isso impacta na possibilidade das pessoas em tratarem a doença”.

Ela também lista outros agravantes, como informalidade na moradia e trabalho. “Existe uma série de vulnerabilidades que vão se acumulando nos que são pobres, em mulheres, principalmente negras, ou em quem tem um recorte pela idade. Essas são as pessoas mais afetadas. Além do risco de contraírem a doença, todas as questões socioeconômicas que emergem vão bater primeiro nelas”.

Para Lívia, a desigualdade faz parte da vida de quem não teve opção de parar de trabalhar durante a pandemia, pessoas que vivem do trabalho informal: “O cotidiano das pessoas em vulnerabilidade vem com uma série de violações e elas são tão constantes que acabam sendo naturalizadas. Ouvi muitos relatos de organizações que falaram que o impacto na renda das famílias foi muito imediato; pessoas que vivem da informalidade, que não têm mais a sua renda garantida, pessoas que trabalham no dia para garantir a alimentação daquele mesmo dia”.

Dados do IBGE apontam que:

  • O Brasil tem 41,4% de trabalhadores na informalidade. São 38,806 milhões de trabalhadores.
  • O país tem 47,8% das mulheres negras em trabalho informal.
  • 3% das casas comandadas por mulheres negras com filhos de até 14 anos sobrevivem com US$ 5,5 per capita ao dia, ou cerca de R$ 420 mensais.
  • A sobrecarga das mulheres vem aumentando nos últimos anos e a jornada da mulher nos serviços de casa é 10 horas e 24 minutos superior à do homem por semana (quase o dobro).
  • O número de trabalhadores informais chegou a 29,2 milhões na segunda semana de junho e a informalidade é que vem segurando o nível de ocupação no país.

Dados do Caged sobre o trabalho formal no estado do Rio de Janeiro:

  • Julho/2020
    20.602 mulheres foram admitidas e 25.061 foram desligadas.
    38.427 homens foram admitidos e 40.626 foram desligados.
  • Junho/2020
    17.742 mulheres foram admitidas e 27.294 foram desligadas.
    32.073 homens foram admitidos e 40.325 foram desligados.
  • Maio/2020
    16.148 mulheres foram admitidas e 30.367 foram desligadas.
    5.393 homens foram admitidos e 49.424 foram desligados.

Fonte: G1

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