Entrevista: Paulo Sérgio Farias, Presidente da CTB-RJ

Entrevista: Paulo Sérgio Farias, Presidente da CTB-RJ

A gestão que se encerra foi eleita num momento turbulento, após o golpe de 2016 e se renova no meio de uma pandemia com um presidente negacionista agindo a favor do vírus e contra o povo, como você avalia a atual gestão e quais os desafios para o próximo período?

Foram anos de muitas lutas. Já de inicio, em 2017 se implantava no país um grande golpe contra a classe trabalhadora e os sindicatos. Na verdade, as mudanças que ocorreram na CLT em 2017 vieram na esteira do golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. O presidente Temer, ungido ao poder através desse golpe promoveu de cara a mudança das regras da terceirização, flexibilizando a legislação de tal forma que o que se vê na atualidade é a quarteirização, quinterização, uma precarização imensa que enormes prejuízos trazem à classe trabalhadora. Essa terceirização é responsável pelos míseros salários e de precárias condições de trabalho além de imensa rotatividade de mão de obra no mercado de trabalho. As mudanças que se sucederam retiraram o financiamento dos sindicatos e impuseram uma profunda transformação pra pior das relações formais no mundo do trabalho.

No bojo da criminalização da política, na crise de representatividade das instituições tradicionais da política brasileira, da intensa campanha midiática, da criminosa operação lava jato, foi eleito um governo de ultra direita, de características fascistas que de cara impôs as mudanças na legislação previdenciária aprofundando mais ainda os ataques à classe trabalhadora. Em dois anos e meio de governo Bolsonaro se consolidou o perfil anti-povo, anti-país, antidemocrático, anti-vacina e mensageiro da morte. 

De um modo geral, o mandato que ora se encerra travou uma luta incessante na defesa da democracia e dos direitos da nossa classe. A CTB, como as demais entidades sindicais foi duramente atingida pelas mudanças ocorridas no mundo do trabalho. O enorme desemprego no Estado do Rio de Janeiro, o desmonte da Petrobras atingiu em cheio o setor naval e a indústria em nosso estado. Sem a contribuição Sindical, desemprego, redução do quadro social, as entidades sindicais sentiram o impacto dessa forte alteração no financiamento das máquinas sindicais. Essas alterações levaram muitas entidades a demitir funcionários e até fechar as portas. Mas com todas as dificuldades a CTB RJ ficou de pé, esteve nas ruas, não deixou de apoiar os movimentos sociais e foi sem dúvida um dos principais esteio da Frente Brasil Popular.

A  gente finaliza esse mandato com um crescimento nas filiações à nossa CTB aumentando inclusive sua capilaridade social no Rio. Nosso principal desafio a curto e médio prazo é a derrota desse governo Bolsonaro. A próxima direção deve perseverar na construção da unidade do movimento sindical, na construção de uma ampla frente democrática e popular pra derrotar o fascismo, derrotar esse projeto negacionista e anti-país. A CTB, que se consolidou no espectro sindical brasileiro não precisa mais provar pra que veio. Pelo contrário, sua missão é construir junto com as demais forças democráticas, as condições necessárias para a formação de uma nova maioria e assim, retomar um projeto nacional de desenvolvimento. Para isso também se faz necessário a derrota dos aliados aqui no ERJ dos aliados de Bolsonaro.

Ao contrário do que ocorreu no IV Congresso, as atividades esse ano serão totalmente online, em virtude da Pandemia. Quais as dificuldades enfrentadas para construção desse V Congresso de forma remota?

Eu sempre digo que o Brasil, que o mundo deu um enorme cavalo de pau. A pandemia do Coronavírus inclusive provocou uma tsunami. Essas mudanças no mundo do trabalho, a introdução da robótica, da automação acelerada, a nanotecnologia fizeram profundas alterações sociais. O avanço na tecnologia deveriam promover o bem estar do povo, ampliar o acesso a um novo marco civilizatório, mais educação, mais saúde, mais saneamento, mais urbanização nas cidades. Mas as elites tacanhas e entreguistas do Brasil só pensam em aferir lucros e manter seus privilégios. Por isso a vacina não chega ao povo, por causa da negação desse governo e isso faz com que normalidade seja um ponto num horizonte distante. Por isso, a pandemia também não sai tão cedo do cenário. Essa pandemia que já tirou a vida de quase meio milhão de brasileiros nos impõe pensar nesse formato virtual. Na verdade a gente já se familiarizou a esse ambiente. Porém, é lógico que temos muitas dúvidas sobre a dinâmica, sobre como manter o interesse dos delegados e delegadas em ficar na sala virtual quando estes estarão em seus lares onde sempre tem alguma coisa por fazer. Acho que o maior desafio é esse, manter as pessoas coladas na telinha. Pra isso, a dinâmica tem que ser leve, suave e participativa.

Durante a atual gestão, o Rio de Janeiro teve 4 governadores (Pezão, Dornelles, Witzel e Cláudio Castro). Como analisar o momento político do Estado do Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro nos últimos 20 anos não teve um governo sequer que não tenha havido uma crise sequer. Acho que durante o governo Lula o Rio perdeu a chance de avançar nas soluções dos graves gargalos da infraestrutura urbana, lamentavelmente, os governos na época optaram pelas obras faraônicas e caras. Governos esses sem nenhuma identidade com as reais necessidades do povo e conectado com as necessidades de desenvolvimento sustentável do estado. A classe política que governou esse estado durante esse período levou o Rio praticamente a falência e por isso mesmo, o governo federal fez essa chantagem de impor esse famigerado Regime de Recuperação Fiscal. Na verdade, o estado não deveria ter assinado esse contrato e muito menos ainda, ter renovado a assinatura. Essa chantagem fez o Rio perder sua última empresa estatal, a CEDAE. Tudo isso faz com que o cenário sombrio que paira sobre esse estado nos deixe cheios de perguntas, de quais são realmente as saídas para essa crise. De uma coisa eu tenho certeza, só sairemos desse atoleiro com uma outra configuração política, de esquerda e com ampla capilaridade na sociedade.

No campo, a CTB-RJ é uma das centrais sindicais mais presentes ao lado dos trabalhadores rurais. Foi assim que enfrentou truculência do poder público e de grileiros em cidades como Silva Jardim e São Pedro da Aldeia, chegando a perder companheiros pela violência nesse processo. Em que pé está a atuação da central na luta dos trabalhadores do campo?

A agricultura familiar já foi mais forte em nosso estado apesar do PIB do campo ficar sempre num percentual muito modesto. O Banerj, antigo banco público estadual de fomento tinha papel destacado no apoio a esse setor mas sua privatização trouxe enormes prejuízos ao estado, inclusive para a agricultura. O empobrecimento da agricultura, a falta de apoio e o avanço da especulação imobiliária ampliaram os conflitos. E, assim como na cidade, no campo as milícias também atuam no sentido de oprimir e expulsar o trabalhador e sua família de suas terras. Nesse período a direção da CTB RJ esteve sintonizada com as lutas do campo, ajudou a criar a FETAGRI. Foi com essa parceria que a CTB esteve na linha de frente combatendo os grileiros, exigindo a punição daqueles que atacaram e mataram nosso camarada Mineiro no Acampamento Emiliano Zapata. Inclusive gostaria de agradecer o apoio da Comissão de Direitos Humanos da OAB pela solidariedade.

A tese da CTB-RJ para o V Congresso fala na necessidade de retomada econômica para trazer emprego, renda e desenvolvimento para o povo do Rio de Janeiro. Qual o caminho para construir essa retomada na crise em que vivemos?

A  saída sem dúvida é a derrota do governo Bolsonaro e seus aliados aqui no estado, formar uma grande bancada de origem popular, democrática e que defenda a soberania nacional sobre nossas riquezas. A CTB em todos os espaços de discussão que tem participado tem alertado para essa necessidade: frente ampla para derrotar o fascismo, construir uma nova maioria para derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas.

A CTB-RJ perdeu companheiros para a Covid-19 e teve entidades filiadas, como o SATEMRJ e o SEC-RJ, atuando a todo tempo por ter seus trabalhadores na linha de frente do combate à covid-19. Como foi presidir uma Central Sindical Classista no meio de uma das maiores crises pandêmicas da história?

Nós ainda estamos no meio desse turbilhão. E jhá dissemos várias vezes que a pandemia revelou de fato o país que vivemos, um país com enorme potencial entregue na mão de um governo fascista que só fez ampliar as injustiças sociais, aumentar o desemprego e recolocar o Brasil no mapa da fome e da miséria. Nossa luta por vacina não pode parar, ela vai estancar essa mortandade, essa desgraça. E o caminho é as ruas, por mais contraditório que seja, mas são as ruas o caminho para demonstrar nossa indignação.

Mesmo com todas as dificuldades financeiras do movimento sindical, a CTB-RJ foi uma central que investiu nas lutas do povo fluminense no último período. Quais as dificuldades enfrentadas pelo movimento sindical anos após as mazelas das Reformas Trabalhista e Previdenciária?

É o que disse acima, esse golpe de 2017 foi o golpe contra o trabalho. Foi implementado para tirar direitos da classe trabalhadora, inviabilizar os sindicatos, asfixiar o movimento social. Essas mudanças nos obriga a debater com profundidade quais são as saídas para o movimento sindical, como fazer com que esse número de sindicalizados pare de diminuir nessa crise de desemprego, como estimular os trabalhadores e trabalhadoras se filiarem e participarem do dia a dia das entidades sindicais.

O Rio de Janeiro (capital) avança rumo à uma Reforma da Previdência que novamente vai penalizar os servidores públicos. Em Brasília, a PEC 32 (Reforma Administrativa) também ataca essa categoria. A CTB-RJ tem uma forte atuação no setor, tendo inclusive filiado a FESEP-RJ no último período. Que mensagem a CTB-RJ pode mandar aos trabalhadores do serviço público nesse momento?

Não descarto a convocação de uma greve geral. Nossos limites nesse momento é a pandemia do coronavírus. E esse governo aproveita para “passar a boiada”, impondo à classe trabalhadora, aos servidores públicos, mais sacrifícios. A PEC 32 é mais uma PEC da morte como foi a que se transformou na EC 95. Não teremos concurso público, promoções, aumentos salariais e investimentos na melhoria do serviço público. Na verdade, o objetivo do governo com essas medidas é a privatização do SUS e de todos os serviços públicos do país.

Quais as expectativas de participação nessa primeira edição totalmente online do Congresso da CTB-RJ?

Minha expectativa é de uma grande participação. Vamos valorizar o debate das teses, já divulgamos as mesmas com antecedência para que todos e todas as leiam e anotem suas contribuições. Estamos pensando em formar pelo menos 4 (quatro) grupos temáticos para debater os vários assuntos e ao final do nosso V Congresso eleger um plano de lutas que aponte o caminho da superação dos desafios que temos pela frente.

Por fim, mas não menos importante, a segurança pública é uma das pautas diárias no Rio de Janeiro. Durante a última gestão a CTB-RJ se inseriu na luta pelas Vidas Negras e contra a violência policial nas favelas. Recentemente vimos uma chacina brutal no Jacarezinho e, há poucos dias, uma mulher negra grávida foi morta na comunidade do Lins. Como que você enxerga o papel do Sindicalismo Classista no debate sobre a Segurança Pública e sobre a luta pelas vidas negras em nosso Estado?

Eu penso que o movimento sindical na atual quadra política tem que atuar conectado as questões sociais que envolvem toda a nossa classe. A questão da insegurança que vivemos na atualidade é fruto desse fascismo reinante no pais, nós estamos vivendo o prenúncio de uma ditadura. O governo do estado, eleito em 2018 na esteira do presidente Bolsonaro, mirou na cabeça do povo o alvo e ele precisa ser detido! Detido pelo povo, na rua! Eu penso que a reciclagem que o movimento sindical precisa fazer passa por essa conexão, estar permanentemente no chão da fábrica, da escola, do comércio mas também no bairro, nos territórios, onde a luta de classe também se desenvolve. O movimento sindical para ser mais forte ainda vai ter que pensar em reunir aqui no estado um Encontro Estadual da Classe Trabalhadora, eleger uma pauta unificada para dialogar com as lideranças políticas em 2022. Esse é o caminho para derrotar o governo Claudio Castro e Bolsonaro em nosso estado.

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