UM ANO SEM MANDELA

UM ANO SEM MANDELA

Mônica Custódio*

Aos 95 anos, Mandela se despediu do mundo material. O Prêmio Nobel da Paz, o Líder da Luta Contra o Apartheid, o Comandante da Luta antirracismo, o Grande Homem, o Madiba que saiu do meio do seu clã e se construiu no libertador de toda uma nação, e referência mundial pela paz e pela emancipação humana partiu. Há um ano nascia, no entanto, a imortalidade de um dos maiores guerreiros pela vida, cuja arma potencial foi o amor. Um amor à frente de seu tempo.

É neste contexto que se expressam a militância dessa luta que é interminável,  desfavorável, corrosiva, que é a luta antirracismo em um momento onde ainda se utiliza da estigmatização, uma velha ferramenta cultural contra a população negra, e persiste o racismo institucional. Essa situação nos coloca com a necessidade de nos reafirmarmos, nos posicionarmos e de irmos para as ruas, a trincheira de grandes batalhas, pelo direito à vida e pelo respeito às diferenças, como ocorreu em Missouri e Ferguson, nos EUA, assim como nas comunidades do Rio de Janeiro e nas grandes metrópoles de nosso país.

O racismo institucional é responsável por um dado alarmante, que confirma o genocídio da população jovem brasileira. Segundo dados da 8ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que foi divulgado no dia 10/11/14, no período de cinco anos os policiais brasileiros mataram mais do que os agentes americanos em 30 anos. Nos últimos cinco anos, os policiais brasileiros mataram, em serviço e fora, 11.197 pessoas, uma média de seis por dia. Enquanto nos Estados Unidos, nos últimos 30 anos, foram 11.090 mortos, média de uma pessoa por dia. Esses dados confirmam uma estatística que a militância do movimento social negro tem se pronunciado e denunciado nos últimos 20 anos. Evidenciando e parafraseando Elza Soares, com letra de Seu Jorge e Marcelo Yuca, em que se diz: “A carne mais barata do mercado, é a carne negra.”

Mas ainda celebrando Mandela, e o valor desse Nobel da Paz, o carinho e o respeito em que as Comunidades Religiosas o recebem é respeitável. É indescritível a importância das cerimônias realizadas, orações cristãs, hindus, muçulmanas, judaicas e rastafáris, um espírito ecumênico refletindo a grandeza e o entendimento da diversidade das comunidades do país e a universalidade desse ícone chamado Mandela.

Ainda com todo esse exemplo, não é essa a realidade que se apresenta em nosso país. Se federaliza uma preocupação crescente com a evolução de comportamentos intolerantes e desrespeitosos contra as Religiões de Matriz Africana.

O apartheid símbolo da luta pela emancipação humana na África do Sul materializado por Mandela, aqui se apresentava através do “Mito da Democracia Racial”. Diziam que se havia apartheid, era “social”, “um reflexo de classe”, “natural”, mas a nossa luta junto ao tempo, o senhor de todas as coisas, mais uma vez desmistificou essa nuance e quebramos esse mito. E é nesses períodos, em que se reafirma a luta emancipatória, que se apresenta com força o racismo e suas formas correlatas.

Madiba se constituiu no guerreiro das hostes libertárias, um guerreiro contemporâneo, à frente de seu tempo, dono de um armamento poderoso e transformador, que grande parte da população necessita, mas desconhece. Foi um remédio para a doença do atraso evolutivo dessa humanidade edificada no individualismo, na sociedade de consumo, no preconceito, no racismo, sexismo e na xenofobia.

Madiba representa uma sociedade evoluída baseada na coletividade, no bem comum, no progresso que reside a igualdade de condição, na emancipação que liberta todas as formas vexatória e na afirmação dessa construção de uma sociedade fraterna, justa e mais igualitária.

Vida a esse guerreiro de luz! Viva Madiba, Viva Mandela!!

 *Mônica Custódio é diretora do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro e faz parte da direção nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.

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